domingo, 3 de março de 2013

Escola sem sala de aula na Rocinha - RJ



Inspiradas em modelo europeu, salas de aula da prefeitura não têm paredes, e alunos escolhem as tarefas


VEJA AQUI REPORTAGEM DO FANTÁSTICO SOBRE O TEMA.

Crianças de diferentes idades dividem a mesma sala de aula, orientadas por professores com conhecimentos multidisciplinares. As paredes sumiram, assim como as carteiras enfileiradas e os quadros-negros. Cada aluno escolhe a tarefa que deseja realizar, sozinho ou em grupo. Inspirado em colégios experimentais de Europa, Estados Unidos e América Latina, o Ginásio Experimental de Novas Tecnologias Educacionais (Gente) estreou há duas semanas na escola municipal André Urani, na Rocinha, que atende alunos do sétimo ao nono ano do ensino fundamental.
O projeto, pioneiro em escolas públicas no país, suscita discussões sobre a adaptação dos alunos e dos pais, sobre a divisão de modelos nos colégios municipais e sobre a própria readequação dos estudantes ao ensino tradicional.

Modelo será expandido

Idealizador do Gente, o subsecretário municipal de Novas Tecnologias Educacionais, Rafael Parente, acredita que a escola tradicional, em que os alunos são divididos por séries e precisam absorver o conteúdo de forma igual, está ultrapassada. Com o projeto, ele pretende desenvolver um modelo focado na individualidade de cada criança. O investimento foi alto: R$ 3,5 milhões — R$ 2,5 milhões vieram de empresas parceiras — para o treinamento de professores, desenvolvimento dos programas educacionais e equipamentos. A escola André Urani funciona como um piloto, que deve ser expandido nos próximos anos. O objetivo é levar o Gente a 150 colégios do Rio até 2016, sob o custo médio de R$ 600 mil por unidade.
Do pátio, os inspetores se espantam com a calmaria que tomou conta do lugar. Divididos entre duas amplas salas de aula e uma sala de leitura, os 180 alunos, reunidos em grupos de seis, entretêm-se com exercícios, vídeos e jogos educativos apresentados em netbooks — cada um tem o seu. A escola conta ainda com laboratório de ciências, quadra poliesportiva, piscina e refeitório. As apostilas e os cadernos não foram deixados de lado, mas a tecnologia é a grande aliada do modelo educacional, que prevê metas semanais de aprendizagem focadas nas necessidades de cada aluno.
— É como se fosse um mundo da fantasia — resume Micael, de 17 anos. — A gente nem sente o tempo passar.
O Rio conta com algumas escolas experimentais privadas, como o Centro Educacional Anísio Teixeira (Ceat), a Escola Parque e a Escola Sá Pereira. A inovação do Gente, portanto, é a introdução desse modelo no ensino público brasileiro.
Especialista em educação e ensino, a linguista Eloíza Dias Neves, da Universidade Federal Fluminense (UFF), lembra que nem todo estudante está preparado para uma escola experimental. A educadora lembra que o modelo propõe uma nova forma de aquisição do conhecimento, mas a eficácia irá depender do contexto em que os estudantes estão.
— Meu questionamento é como será essa experiência numa escola pública dentro de uma comunidade. O pai da escola pública geralmente se envolve menos com a educação dos filhos, passa muito tempo fora de casa. Muitos alunos sequer têm os pais presentes — diz a educadora, lembrando de suas próprias experiências em instituições do estado.

Método ainda gera dúvidas

A relação com os pais dos alunos do Gente é um assunto delicado. Todos assinaram um documento em que afirmam estarem cientes do modelo de escola em que inseriram seus filhos, além de terem participado de uma reunião expositiva. Mas os professores afirmam que muitos pais sequer sabem ler. Outros acham a escola bonita, bem equipada, mas parecem não ter compreendido todas as inovações.
A artesã Angélica Telles, tia de um dos alunos da escola, surpreendeu-se ao ser questionada sobre o novo modelo educacional:
— Nunca tinha ouvido falar sobre algo do tipo. Acho estranho, mas quem tem que saber se é bom ou não são os alunos e os professores.
O sobrinho, Ângelo, tem outros questionamentos. Aluno do nono ano, ele deverá voltar para uma escola tradicional:
— Perguntei ao professor: a gente vai ter que voltar para a realidade dos quadros? Essa é a única escola a que tenho vontade de ir. Ele disse que vou voltar, mas com outra cabeça.

CONHEÇA MAIS SOBRE O PROJETO EXPERIMENTAL DE TECNOLOGIAS EDUCACIONAIS

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