quarta-feira, 4 de maio de 2011

BIN LADEN ESTÁ MORTO! MAS E OSAMA?

Por: Romualdo Pessoa Campos Filho

Não. O título não está errado. Eu não quis dizer Obama, e sim Osama.
A notícia da morte do líder terrorista mais procurado do mundo chegou neste domingo pelos meios de comunicação. Pela TV e internet foi divulgado a operação que eliminou o chefe da rede Al Qaeda a pouco mais de cem quilômetros de Islamabad, capital do Paquistão. Segundo as informações Bin Laden escondia-se em uma fortaleza na cidade de Abottabad. A cidade tem cerca de 130.000 habitantes e é considerada uma das mais limpas e organizadas do Paquistão. Já entra para História com esse fato.
Mas qual a razão do trocadilho do título? Porque longe da euforia com que a notícia foi veiculada, e até que do ponto de vista simbólico, principalmente para os EUA, faça algum sentido, devemos compreender que a dimensão dos conflitos que se espalham pelo mundo, e do qual o terrorismo é apenas uma tática, vai muito além de Bin Laden.
Não há dúvida que os atos terroristas cometidos pela Al Qaeda são abomináveis. Dentre eles a destruição do Word Trade Center. Por mais justas que sejam as razões que motivam seus membros, o assassinato de milhares de pessoas inocentes é inconcebível, até porque são insuficientes para fazer modificar a política também criminosa das potencias imperialistas, notadamente os EUA.
 Ações terroristas fazem parte da história de inúmeros conflitos, e chegou a ser defendida abertamente por Trotsky, na Rússia pré-revolucionária, de forma indiscriminada, e até mesmo por Lênin, aí já de maneira criteriosa, desde que os alvos fossem personagens destacados e lideranças importantes da classe dominante.
Elas são justificadas, por quem a utilizam, pelo fato de o inimigo ser muito mais poderoso e bem armado, não restando outros artifícios capazes de trazer a vitória do que o fustigamento surpreso de ataques a pontos estratégicos. De forma a gerar o terror, o medo, e fragilizar o lado psicológico principalmente da multidão. E assim desnortear o comando militar adversário, muito bem armado, mas impotente diante de inimigo praticamente invisível e que pode estar em qualquer lugar.
Mas ao longo da história os atentados terroristas, principalmente no século XX, terminaram por causar um número extremamente elevado de vítimas inocentes, de forma aleatória, transformando seus responsáveis em bandidos comuns, e não surtindo o efeito desejado de alterar a política, ou até mesmo de derrubar governos.
Contudo, há um outro lado dessa história. O banditismo, principalmente aquele que carrega em sua origem elementos de desigualdades e de injustiças sociais, se causa medo também gera outra expectativa, de ver o lado mais forte ser derrotado. Esse lado é identificado como o causador das injustiças que geraram aqueles atos de banditismo. Isso possibilita que a figura do indivíduo caçado, procurado por atos criminosos cometidos contra um possível opressor, seja transformado em um mito. Essa é a razão de, ao longo da história, serem muitos os casos de indivíduos, acusados de crimes, tornarem-se perante o povo, verdadeiros heróis. Spartacus, Robin Hood, Lampião, são alguns desses exemplos. Sem medo de criar polêmica, cito o mais importante destes, cuja morte transformou suas idéias na maior religião do mundo: Jesus Cristo. E a morte não mata os mitos. Muito ao contrário, potencializa-o, torna-o inquebrantável.
Não quero aqui estabelecer nenhum parâmetro comparativo entre esses personagens, até porque seria absurdo fazê-lo e mero artificialismo. Mas dizer que os atos e fatos cometidos por grandes nações, em especial no tocante ao domínio e exploração rapaces das riquezas de países mais frágeis economicamente, embora ricos potencialmente, sempre geraram reações violentas e geradoras de guerras, guerrilhas e pequenos ou grandes atos terroristas para combater o opressor e invasor de seus domínios territoriais. E grandes lideranças, para o “bem” ou para o “mal”, surgiram desses processos.
 Nessa lista de confrontos, a denominação de terrorista será dada a depender do lado da história em que cada um se coloque. A dizimação da população aborígene na América, inclusive no oeste dos Estados Unidos, a invasão do Vietnã, o aculturamento forçado na Austrália, o bloqueio à Gaza na Palestina ocupada e tantos outros casos de domínio colonialista imposto principalmente pelas potencias, sempre criaram e criarão os Bin Ladens.
Esse espaço é extremamente reduzido para listarmos a quantidade de “heróis e bandidos” que tornaram-se mitos no enfrentamento a situações de opressões e injustiças sociais. Muito embora essa mesma história não seja suficiente para ensinar o quanto essas desigualdades são forças potenciais a elevar figuras como Bin Laden a líderes de causas muitas vezes justas, mas combatidas por caminhos tortuosos e criminosos.
Por essa razão, por continuarem a mesma política belicista e agressora, exploradora das riquezas, principalmente as minerais, é que indico no trocadilho do título a criação de mais um mito, visto de uma realidade completamente diferente daquela com que os jovens estadunidenses euforicamente saíram às ruas para comemorar a morte do “terrorista mais procurado do mundo” .
Osama é um nome comum no Afeganistão, como é em outras partes do mundo, John, Joaquim, José, João e até mesmo Ribamar. Está ligado com elementos da cultura e da religiosidade de cada lugar. São esses indivíduos, anônimos, explorados por uma situação de exploração e desigualdade social, que transformam em mitos figuras que são capazes de enfrentar impérios, exércitos poderosos e “coronéis”.
Iludem-se aqueles que se apegam ao simbolismo da morte de Bin Laden e vê isso como uma grande vitória. Como ato simbólico, a demonstrar o poderio do império e da “força da lei” e do “bem”, momentaneamente surtirá efeito. Inclusive eleitoral, para Obama. Sem trocadilho. Mas a Al Qaeda é muito maior do que o seu líder. Transformou-se em uma organização mundial, uma verdadeira “franquia” de grupos que se organizam para combater a política intervencionista e agressora das potencias européias nesse exato momento expresso na tentativa de eliminar Muamar Kadafi. Embora um ditador, há muitos anos no poder, Kadafi é problema dos Líbios, assim como Berlusconi é um problema dos italianos.
A ação agressora, praticada pela OTAN, a serviços das potencias européias e dos EUA, não se difere dos atos terroristas da Al Qaeda, a não ser pela dimensão tecnológica e do aparato bélico. Assim o foi no Iraque, onde centenas de milhares de iraquianos inocentes foram mortos desde a ocupação estadunidense naquele país. Numa quantidade de mortos muito maior do que a que foi atribuída a Sadam Hussein. O mesmo se repete no Afeganistão.
Nessas situações, e de forma aberrante, a terceirização da guerra permite que os grupos de mercenários executem missões aleatoriamente, e os abusos cometidos, atos de selvageria e assassinato em massa, não podem ser julgados pela justiça daquele país que está sob ocupação. É o caso do que cometeu por muito tempo a Blackwater, maior empresa privada de guerra do mundo. Depois de praticarem vários massacres no Iraque e ter sido denunciada em um livro com o mesmo nome ela foi forçada a mudar sua denominação, passando a chamar-se simplesmente XE.
Quantos novos seguidores da Al Qaeda surgem de situações como essas, de explícitas injustiças, covardias e assassinatos, sem que seja possível punir e condenar os responsáveis? Como surgem os “homens bombas”? Obviamente surgem de situações de crescente revolta contra atos violentos praticados contra uma população frágil e que não permite outro tipo de reação, na medida em que o inimigo é extremamente poderoso. As guerras de guerrilhas e o terrorismo são conseqüência dessa situação. Creio que dois bons filmes podem nos ajudar a entender isso: A Batalha de Argel (recentemente relançado em DVD duplo com bons extras), do diretor Gillo Pontecorvo, que retrata a luta pela libertação do povo argelino contra a dominação colonialista francesa; e Paradise Now, filme mais recente, de 2005, e ganhador de Oscar de melhor filme estrangeiro, que mostra a condição de vida dos jovens palestinos e a sua fragilidade e revolta que os tornam alvos fáceis no processo de recrutamento para tornarem-se “homens bombas”.
Da mesma maneira grupos de bandidos comuns, se aproveitam da situação desses conflitos para dominarem territórios, e quase sempre após essas invasões esses grupos tornam-se um poder paralelo, sendo difícil eliminá-los. Os exemplos podem ser vistos na Somália, no Iêmen, no Sudão, no Afeganistão e em muitos outros lugares. Tornam, eles também, grupos de mercenários fortemente armados, e passam a se constituir entraves para seus antigos aliados: as potencias invasoras. O exemplo mais visível foi do Talibã, armado para combater as antigas tropas soviéticas no Afeganistão. E isso pode estar se repetindo nesse momento na Líbia, e tudo indica que poderá vir a acontecer na Síria.
Bin Laden está morto, mas a situação que o gerou permanece. Isso, certamente, será um motivo para torná-lo um mito muito mais poderoso do que em vida, principalmente nos países onde o radicalismo islâmico se destaca. Embora minoritário, se constitui na força hegemônica de combate as agressões imperialistas. E é bom que o corpo seja apresentado, e devidamente identificado, porque senão se ampliará em muito a dimensão do mito.
E mal se começa a comemorar sua morte e já aparece outro em primeiro lugar, na lista dos dez mais procurados terroristas. A bola da vez agora é o egípcio Ayman Al-Zawahir. Conseguirão ser eliminados? Certamente, o poderio bélico e a capacidade tecnológica e de espionagem é insuperável. Mas assim seguirá a sucessão de novos rebeldes e mitos, porquanto durar as agressões imperialistas e a crescente desigualdade social no mundo.
Por mais que se comemore neste momento a morte de Bin Laden, e que isso sirva para animar o sentimento nacionalista estadunidense, o mundo não estará livre da violência e dos atentados terroristas. E os alvos potenciais continuarão sendo aqueles que em nome do “bem” e da “democracia”, persistem em cometer usurpação, crimes e assassinatos em claro e visível banditismo imperialista.
Para finalizar reporto-me ao livro de Howard Fast, romanceando a vida de Spartacus (que virou roteiro para um filme clássico e ganhador de vários prêmios). Ao ser crucificado na Via Appia – estrada que saía da antiga Roma em direção à Cápua - juntamente com milhares de seus seguidores que, todos eles, teriam assumidos ser também o próprio, ele teria dito no momento em que sua companheira Varínia se aproxima dele com o filho nos braços: “Eu voltarei, e serei milhões”.
Enquanto se ampliar o fosso entre ricos e pobres e a desigualdade se constituir em claro abuso e afronta à humanidade os mitos se multiplicarão, e eles se humanizam na figura daqueles que despontam com coragem de desafiar os mais fortes. E por assim o ser, tornam-se eles mitos maiores do que as dimensões humanas que lhes são atribuídas.
Bin Laden era o alvo, mas o perigo é a miséria e a injustiça social. A Al Qaeda tende a se multiplicar, na medida em que as políticas das grandes potências persistirem em explorar nos países mais pobres as riquezas para salvar suas  ganâncias, usuras e inaceitáveis (para eles) falências.

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