domingo, 16 de maio de 2010

Cem anos de Rachel de Queiroz

O centenário da escritora retoma discussão sobre o reconhecimento de sua literatura e suas posições políticas, como o apoio ao golpe militar em 1964.

Rachel de Queiroz faria 100 anos em 17 de novembro, e já foi dada a largada para as comemorações do seu centenário. Quem disparou na frente foi o Ceará, onde tudo começou para a escritora, nascida em Fortaleza. Rachel foi a homenageada da Bienal Internacional do Livro do Ceará, que terminou no último dia 18. Os visitantes do evento circularam por espaços que foram batizados com os nomes de seus livros, como “O quinze” e “Memorial de Maria Moura”.
Um ciclo de seminários reuniu pesquisadores de sua obra e escritores. Agora, a Fundação Demócrito Rocha prepara para um roteiro gastronômico na cidade, indicando receitas do livro Não me deixes: suas histórias e sua cozinha, no qual Rachel apresenta o cardápio da fazenda nordestina. Entre as discussões apresentadas nas palestras estavam o reconhecimento da escritora como a primeira voz feminina na literatura modernista. “A crítica elegeu Clarice Lispector como a 'escritora do Modernismo', mas Rachel já se apresentava modernista com O quinze”, disse o escritor Antonio Torres.
“Aqui no Ceará, todos adoram a Rachel porque, apesar de ela ter morado a maior parte da vida no Rio de Janeiro, ela nunca deixou a terra natal. O estado tem outros grandes escritores, como José de Alencar e Capistrano de Abreu. Mas Alencar nunca viveu o Ceará como Rachel. E entre Capistrano e o Ceará há uma distância imensa”, diz a editora Regina Ribeiro, que coordena uma série de produções em homenagem à escritora ao longo do ano.
O possível motivo desse esquecimento foi lembrado pela escritora e crítica literária Heloísa Buarque de Holanda em uma das palestras que proferiu na Bienal do Ceará. “Rachel apoiou o golpe de 1964. Sua obra teve um prejuízo grande por causa disso. Sua literatura não é tão reconhecida quanto deveria e merece uma revisão crítica”, disse Heloísa.
Enquanto acontecia o evento literário, o jornal O Povo publicou, por três dias, uma série especial dedicada à escritora. Em uma das edições, o jornalista Dimitri Túlio chama a atenção para o envolvimento da escritora com a política: “Foi da esquerda comunista contra a Era Getúlio, virou dissidente do Partidão, foi perseguida pelo Estado Novo. Em um tempo conspirou dentro de sua casa para fazer rebentar o golpe militar de 1964 e se fez situação de camarote”, escreveu Dimitri.
Contraditoriamente, a mesma determinação que Rachel usara para combater Getúlio no Estado Novo foi usada anos mais tarde para tirar João Goulart da Presidência. O golpe de 1964 chegou a ser chamado de “sofá da Rachel”, referindo-se às reuniões conspiratórias que aconteciam na casa da escritora, que, aliás, tinha parentesco com o primeiro presidente do regime militar: Humberto Castelo Branco (1897-1967).
Em 1991, Rachel foi a entrevistada do programa Roda Viva, da TV Cultura. O jornalista Caio Fernando Abreu chegou a perguntá-la o motivo de ela ter apoiado o golpe de 64. A escritora responde: “Eu abominava o janguismo e ainda hoje abomino o Brizola, que representa o janguismo, o Getúlio. Era uma expressão disso tudo”. Sobre as torturas do regime militar, ela se manifesta contra: “A revolução que apoiei foi enquanto Castelo Branco era presidente, e ele não fez tortura nenhuma, a intenção dele era fazer eleições para um presidente civil”.
Na Bienal, Heloísa fez questão de frisar o quanto a política esteve presente na obra de Rachel. “Ela retratava muito bem as matriarcas nordestinas. Maria Moura [do romance Memorial de Maria Moura] era uma mistura de Elizabeth I, da Inglaterra, com uma cangaceira do século XVI”, disse ela. De fato, já aos 16 anos, Rachel dava pistas da militância que estava por vir, em carta enviada ao jornal O Ceará, endereçada à Rainha dos Estudantes: “Faça inversamente o que fizeram os dois Napoleões da França: dê um golpe de estado, mas de trás para adiante!”.
Seus romances e crônicas ainda são pouco estudados pelos acadêmicos. Ainda assim, seu primeiro romance, O quinze, está na 64ª edição. E a Edições Demócito Rocha acaba de lançar a trilogia Do Nordeste ao infinito, A lua de Londres – ambos livros de crônicas – e Uma escrita no tempo, uma série de ensaios sobre a obra da autora com textos de Nélida Piñon, Socorro Acioli e Luís Bueno, entre outros. A mesma editora também expõe em seu catálogo Rachel – O mundo por escrito, de Tércia Montenegro, uma biografia destinada ao público infanto-juvenil.
Até completar de fato o centenário da escritora, outros títulos devem aparecer. A editora José Olympio é uma das que se preparam para lançar novo livro sobre Rachel. O conterrâneo Edson Neto já se adiantou, antes mesmo da Bienal, com um cordel em sua homenagem: “Após viver tanta dor/ ter de enfrentar tantos danos/ recolheu tudo e fez arte/ Se viva, teria planos/ já para dois mil e dez/ Contar sobre seus cem anos”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário