quarta-feira, 20 de junho de 2012

SIGNIFICADO HISTÓRICO DA MÚSICA PARAÍBA GRAVADA POR LUIZ GONZAGA


Mulher macho sim senhor
A ignorância trabalha a favor do preconceito.
Em 1930, foram candidatos Getúlio Vargas a presidente e João Pessoa a vice.
Na época, o voto era aberto, ou seja, do lado esquerdo estava o livro de Júlio Prestes e do lado direito estava o livro de Getúlio.
E ai daquele que, na fila, trocasse o livro de votação; seria severamente punido pelos seus Coronéis de plantão que ali ficavam o dia inteiro pra dirigir o voto da “manada”. Esse era o chamado “Voto de Cabresto”.
Apuradas as eleições, quem foi eleito? Quem? Quem? Júlio Prestes, lógico.
E aí, João Pessoa disse a Getúlio:
- Ou teremos voto secreto, ou nunca nós do Partido Liberal ganharemos uma eleição.
A partir daí travou-se o seguinte diálogo:
- Nós temos que partir pra luta, pra bala, Getúlio.
- Mas como poderemos brigar sem termos armas João?
- Brigaremos de baladeira (estilingue), bodoque, funda, pedra e páus, de qualquer jeito.
Convenceu Getúlio e ele subiu do Rio Grande do Sul e João Pessoa desceu da Paraíba, para a luta armada.
No Recife, João Pessoa foi assassinado, o que revoltou a maioria da população brasileira e a revolução de trinta ganhou muito mais força e adeptos. Getúlio terminou amarrando os cavalos no monumento do Ipiranga em São Paulo.
A partir daí, chegou ao Rio de Janeiro já de trem, aclamado pelo povo.
Tivemos a partir de Getúlio, o voto secreto, a jornada de 8 horas, o descanso semanal, as férias, o FGTS, ou seja, as leis trabalhistas em geral .
Considerando que a revolução iniciou com João Pessoa da Paraíba, Humberto Teixeira fez a música Paraíba Masculina e Luiz Gonzaga gravou. Foi uma homenagem a um Estado tão pequenino, feminino, mas que transformou a nação inteira.
Por má interpretação, e ajudada pelo próprio Gonzaga, na sua última versão, empurrado pela sua gravadora a seguir a onda e ganhar mais grana, ele gravou a versão que diz: “vai pra lá peste” e ai desvirtuou toda criatividade e todo o arcabouço histórico que Humberto Teixeira quis imprimir na música.
No Brasil, somente existem dois estados femininos: a Bahia e a Paraíba, (mesmo Santa Catarina que deveria ser feminino, não o é). Sempre nos referimos a ela como: o Estado de Santa Catarina. Não dizemos a Santa Catarina do jeito que dizemos a Bahia e a Paraíba.
Certos versos, como o que diz: “eita, pau Pereira” se refere a Zé Pereira que indignado com o voto de cabresto e outras excrescências da República Velha, proclamou a República Independente de Princesa (cidade onde vivia, também na Paraíba).
Outro verso: “seu bodoque não quebrou” refere-se à coragem de João Pessoa em brigar de qualquer forma, mesmo de bodoque.
“Hoje eu mando um abraço pra ti pequenina.
Paraíba masculina
mulher macho sim senhor”
“Mulher macho” não tem nada a ver com sapatão. “Mulher macho” se refere a própria Paraíba (Estado), pequenina, feminina, porém definitiva na história da nossa nação.


 VEJA AQUI LETRA E VÍDEO.

16 comentários:

  1. Muito interessante e esclarecedor este artigo. Fiquei indignado e decepcionado com relação ao Rei do baião que seguiu a onda do "ganhar mais grana".
    Quanto mais visibilidade maior será a responsabilidade.
    O mais importante é saber que o real significado da música é uma homenagem a Paraíba. Parabéns Profª Isabel.

    Prof. Robson Rangel

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    1. Profº Robson Rangel, obrigada pelos elogios!
      Realmente é triste constatar como em nome do dinheiro as pessoas traem seus princípios.

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  2. Isabel, gostei muito de saber sobre a origem desta música do Luis Gonzaga,saber o real significado dela e esclarecer a outras pessoas evitando a discriminação.
    Obrigada!

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  3. Bom, eu gostaria de várias explicações de músicas da paraíba mas, essa deu pra esclarecer mais ou menos alguns significados fale de todas as músicas da paraíba! ok ?

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  4. Bacana. Sempre me perguntei a razão dos termos dessa música. Minha avó era cearense e minha mãe é pernambucana. Por alguma razão, foram e são mulheres de muita coragem e determinação, embora femininas.

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  5. de fato, a interpretação está muito boa. (:

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  7. Cara professora,
    O artigo ficou muito bem escrito, mas Getúlio não amarrou os cavalos no monumento do Ipiranga em São Paulo, e sim no obelisco da Avenida Rio Branco no Rio de Janeiro. Saiu um excelente artigo na "Revista da História", publicação distribuída para as escolas estaduais, que também vale a pena ler, parabéns pelo artigo.
    Gilmar Pereira dos Santos
    Profº de História da rede estadual de São Paulo

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    1. Profº Gilmar, gostei demais das suas observações. Vou verificar e corrigir. Abraços e volte sempre.

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  8. LINDISSIMA INTERPRETAÇÃO ESTIVE HOJE EM PRINCESA ISABEL!!!E JA HAVIA ESCUTADO ESSA HISTORIA DO SOBRINHO DE HUMBERTO TEIXEIRA!!!!!

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  9. Isabel, parabéns pelo artigo! Faltou mencionar que quando o Coronel José Pereira gritou independência do estado, e enfrentou o exército de João Pessoa, as mulheres princesenses ficaram atrás das barricadas carregando as armas dos maridos e filhos.

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  10. Isabel, parabéns pelo artigo! Faltou mencionar que quando o Coronel José Pereira gritou independência do estado, e enfrentou o exército de João Pessoa, as mulheres princesenses ficaram atrás das barricadas carregando as armas dos maridos e filhos.

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  11. Parabéns pelo seu artigo, sou carioca e filho de paraibana, confesso que senti-me orgulhoso pela nossa pequenina Paraíba, lugar em que estive por duas vezes, mas já faz tempo. Seu artigo foi esclarecedor!!!

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  12. Parabéns professora Isabel pelo excelente artigo. Diria que faltou apenas informar que a expressão "Paraíba mulher macho" ganhou novos significados, referindo-se a coragem das mulheres paraibanas, seja pelo temperamento forte, seja pela disposição de enfrentar as dificuldades. A expressão passou a ser usada também, em determinados contextos, a todas as nordestinas que demonstram comportamento semelhante.

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  13. Excelente publicação. Eu sempre critiquei a "ignorância" de Luiz Gonzaga, que "pensava" que Paraíba, "muié macho", referia-se à mulher paraibana e anão, ao Estado. Criou-se a partir daí, um estigma preconceituoso, alimentado por pessoas, que jamais entenderam as metáforas contidas nessa letra primorosa.

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    1. Obrigada por interagir com o blog. Pena que você não se identificou. Volte sempre!

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