domingo, 30 de maio de 2010

A eleição colombiana deste domingo e os rumos do continente


A eleição presidencial que se avizinha na Colômbia (acontece neste domingo) pode dar um fim ao uribismo, mas isso não significa, necessariamente, uma mudança radical nas políticas implementadas pelo governo colombiano na última década.
O principal candidato da oposição, Antanas Mockus, do Partido Verde, já lidera as pesquisas de opinião com 32,8% das intenções de voto (Instituto Datexco). O quadro é muito diferente das eleições parlamentares de 14 de março, quando o Partido Conservador e o Partido de La U – que sustentam o uribismo – receberam quase a metade dos votos, enquanto o Partido Verde ficou com cerca de 3% das cadeiras.
Mockus, filósofo e matemático, é visto como um liberal nos costumes. Certa vez, quando reitor da Universidade Nacional de Bogotá, baixou as calças para chamar a atenção dos alunos. Prefeito da capital, entre 1995 1997, empreendeu campanha de pela redução da violência em que, entre outras coisas, distribuía aos motoristas de trânsito cartões com polegares para cima e para baixo, que eram levantados mediante manobras corteses ou imprudentes.
Mockus decretou toque de recolher em bares e até determinou que num certo dia apenas mulheres poderiam sair às ruas. Pra completar, chegou a se fantasiar de super-heróis para divulgar suas ideias.
Por outro lado, Mockus já deixou claro seu conservadorismo ao afirmar que vai continuar a política de segurança de Uribe – ressalvando que não permitirá violações de direitos humanos – e ao mostrar-se favorável à abertura econômica.
Por sua vez, o situacionista Juan Manuel Santos, que tem 29,3% das intenções de voto (Datexco), foi ministro da Defesa de Uribe e um dos grandes ideólogos das últimas investidas contra as Farc, inclusive aquelas que violaram a soberania do Equador e assassinaram guerrilheiros desarmados.
O paramilitarismo passou a ser o lado sombrio da política de segurança de Uribe. Enquanto o discurso oficial era voltado contra os guerrilheiros, as assim chamadas Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) passaram a aterrorizar a população, perseguindo e seqüestrando opositores políticos. Segundo o professor Roberto Leher, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, “estão matando defensores dos direitos humanos na ordem de centenas por ano”. A perseguição foi tão intensa que num dado momento passou a ser impossível escondê-la. E parlamentares uribistas foram presos por suas ligações com grupos paramilitares.
Esse modelo, que por algum motivo misterioso não merece muita atenção das corporações brasileiras de mídia, é bastante admirado pelo ex-prefeito do Rio de Janeiro, César Maia (DEM), que em entrevistas chegou a defender as milícias, que seriam nossas AUC, e teriam um papel importante no combate aos traficantes varejistas. Como os fatos se encarregaram de provar, as milícias – grupos paramilitares formados por policiais, bombeiros, agentes penitenciários e outros – estavam atrás de dinheiro e aterrorizavam a população como um todo, sobretudo os segmentos mais pobres.
Nesse sentido, a eleição colombiana seria uma espécie de disputa entre extrema-direita x direita. Ou, mal comparando, a diferença entre Mockus e Santos seria aquela que existia entre Clinton e Bush. “Clinton era alguém com quem se podia conversar”, disse certa vez o presidente Hugo Chávez.
No plano geopolítico, essa diferença sutil entre Mockus e Santos pode contar muito. A Colômbia tem funcionado, com Uribe, como um satélite estadunidense encravado na América do Sul. Na última década o Plano Colômbia tem jorrado bilhões de dólares ianques, que desembarcam junto com armas, equipamentos e pessoal no país sul-americano – o que constitui uma ameaça para o equilíbrio em todo o continente.

O Brasil jogará um papel fundamental na Colômbia, assim como tem feito em toda a América Latina. Com o fim do atrelamento automático aos EUA, a política externa multilateral do governo Lula sinaliza que os colombianos não precisam temer a perda do “apoio” estadunidense.
O Brasil consegue, com folga, suplantá-lo, como se pode deduzir do aumento das relações sócio-econômicas Sul-Sul. Na Bolívia, vale lembrar, após a expulsão da DEA, em 2008, foi a Polícia Federal brasileira quem ocupou o espaço.
A eleição colombiana causará grande impacto na atual configuração política do continente sul-americano. Num momento em que o Equador deu uma guinada à esquerda com Rafael Correa, em que Chávez consolida a revolução bolivariana na Venezuela e Evo Morales empurra a Bolívia, no coração do continente, para o controle popular, a Colômbia torna-se, mais do que nunca, fundamental no xadrez político da região. E, como se sabe, nesse jogo quem domina o centro ganha a disputa.
Se vencer Santos, o projeto estadunidense será mantido por mais algum tempo. Se vencer Mockus, haverá espaço para a esquerda latino-americana avançar. Mas entre as dúvidas há pelo menos uma certeza: o processo político em marcha em Nuestra América é irreversível.
Como diz o presidente Evo Morales: “Nunca mais voltaremos ao passado. Colonialismo nunca mais, imperialismo nunca mais, neoliberalismo nunca mais”. A profecia de Mariátegui foi cumprida. O povo latino-americano já se sente sujeito de sua própria história.

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